UM POEMA DE JORGE AMÂNCIO
O LEOPARDO QUE MATA MOSCAS INOPORTUNAS
come cachorro
faz o traje de sete pássaros
salva quem está a morrer
ferreiro do céu, não me fira no pé
pai do ferro, não me fira na mão
a criança carrega seu fardo
o que acontecerá amanhã?
dono do braço e do pé briguentos
chapéu coberto de sangue
elefante faz a sua cabeça
o relâmpago assusta o preguiçoso
transforma uma pessoa em 200
o fogo que varre a floresta
rapa a orelha da sogra
mata à direita e destrói à direita
pesado pai da bigorna
mata à esquerda e destrói à esquerda
esfrega a cara dos banqueiros na terra
mata o dono das mamas compridas
come rato e bunda dos fascistas
mata quem foge da luta
ele mata no dia da festa
em cima de uma pedra
num lugar estreito
ele mata sem falar com ninguém
sem vender o corpo
sem levar o corpo
o abutre estraçalha e come o cadáver
dono das franjas de dendezeiro
tendo água, lava-se com sangue
amarra a faca no cinto de algodão
mata para atemorizar
desperta toma orvalho
derrama ouro na forja
onde mora, é escuro
leopardo que mata moscas inoportunas
completo em sete partes
cabeça de folha grande
coisa para ser olhada
morto balança a cabeça
no ombro de quem o carrega
o pântano corre em direção ao rio
chefe do ferro, homem guerreiro
dança e a floresta balança
cai a pilastra e a terra treme
tem 400 mulheres, 1400 filhos
dono da foice, fuzil faz barulho
na briga do caranguejo e do peixe
o riso (de Ogum) não é um gracejo

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